D. Afonso Henriques conquista Lisboa com a ajuda de cruzados

Duarte Nunes de Leão, “Crónica do Rei D. Afonso Henriques”, Crónicas dos Reis de Portugal, Porto, Lello & Irmão, 1975, p. 71.

 

Depois cercou o castelo de Sintra, e o tomou, o que não poderia ser sem muita dificuldade, por a altura e aspereza do lugar, e a grande multidão de pedras soltas, que naquele monte há, que parece que choveram nele, com que muito poucos se poderiam defender de muitos. Neste tempo estando el-rei naquele Castelo, viu pelo mar vir uma grossa armada de cento e cinquenta velas que vinham demandar a terra junto à rocha de Sintra. Pelo que mandou a ela quatro cavaleiros a saber que gente era. Eles lhe responderam, que eram de Alemanha, França, e Inglaterra, e dos estados de Flandres, e se ajuntaram para irem servir a Deus contra Mouros na guerra de ultramar, e que passavam seu caminho. Entre estes estrangeiros vinham muitos senhores de estado, Condes e grandes cavaleiros, e a companhia que traziam era de catorze mil homens. Dos quais vinha por general Guilhelme da longa espada, e com ele Childe Rolim, Dom Liberche, Dom Ligel por capitães principais, e de grande sangue. Quando el-rei soube quem eram os da frota, e a tenção com que vinham, pareceu-lhe, que Deus os fizera ali aportar naquele tempo, e por aquele lugar, para serem em sua ajuda na empresa de tomar Lisboa aos Mouros. Pelo que deu muitas graças a Deus e ao das frotas mandou dizer, que cressem, que não sem grande mistério eles ali eram vindos: porque a tenção que traziam, em nenhum tempo e lugar a melhor podiam executar, que na tomada da cidade de Lisboa, que cinco léguas dali estava.