David S. Landes
Riqueza e a Pobreza das Nações
3ª ed., Rio de Janeiro, Campus, 1999, pp. 592-593.
Países ricos, países pobres
Sem dúvida, os países ricos,
industriais, podem defender-se (aliviar mas não eliminar o sofrimento)
permanecendo na vanguarda da pesquisa, mudando para novos e crescentes
ramos (criando novos empregos), aprendendo de outros, descobrindo os
nichos certos, cultivando e usando talento, competência e conhecimento.
Podem percorrer um longo caminho mantendo um ritmo constante e seguro
e contando com redes de segurança, ajudando os perdedores a aprender
novas técnicas e qualificações, a obter novos empregos, ou simplesmente
a se aposentarem. Muito dependerá do seu espírito de iniciativa, senso
de identidade e compromisso com o bem-estar comum, de sua auto-estima
e da capacidade de transmitir esses predicados a sucessivas gerações.
Enquanto isso, o que fazer com os pobres, os atrasados, os desfavorecidos?
Por fim de contas, os países industriais ricos encontram-se numa situação
tão confortável, por mais pressionados que sejam pela nova concorrência,
que fica muito difícil provocarem preocupação e simpatia. Apesar de
todos os seus problemas, eles têm uma obrigação contínua moral ainda
mais do que previdente, para com os menos afortunados. Devem dar pelo
prazer de dar? Dar somente quando faz sentido (compensa) dar? Dar, como
fazem os banqueiros, de preferência àqueles que não necessitam de ajuda?
Amor egoísta, amor altruísta? Ambos? Faço essas perguntas, não porque
saiba as respostas (só os verdadeiros crentes pretendem conhecê-las),
mas porque se deve estar cônscio do inextricável emaranhado de motivos
conflitantes e efeitos contraditórios. A navegação através dessas corredeiras
exige constantes ajustes e correcções, tanto mais difícil porquanto
qualquer plano ou programa de acção é condicionado por políticas internas.
E os pobres, o que fazem? A história nos ensina que os mais bem sucedidos
tratamentos para a pobreza vêm de dentro. A ajuda externa pode ser útil,
mas, como a fortuna inesperada, também pode ser prejudicial. Pode desencorajar
o esforço e plantar uma sensação paralizante de incapacidade. Como diz
um aforismo africano: "A mão que recebe está sempre por baixo da mão
que dá." Não, o que conta é trabalho, parcimónia, honestidade, paciência,
tenacidade. Para gente acossada pelo infortúnio e a fome, isso pode
contribuir para uma indiferença egoísta. Mas, no fundo, nenhuma acção
é tão eficaz, tão efectiva, quanto aquela que as próprias pessoas se
habilitam para realizar por si mesmas, sem a ajuda alheia. Algumas destas
coisas podem soar a uma colecção de lugares-comuns - o género de lições
que se costumava aprender em casa e na escola, quando pais e professores
pensavam ter a missão de criar e educar seus filhos. Hoje, dignamo-nos
condescender com tais verdades, deixamo-las de lado como desenxabidas
banalidades. Mas por que considerar obsoleta a sabedoria? Estamos vivendo,
sem dúvida, numa época de sobremesa. Queremos que as coisas sejam doces;
muitos de nós trabalhamos para viver e vivemos para ser felizes. Nada
há de errado nisso; só que isso não promove uma alta produtividade.
Queremos alta produtividade? Então deveremos viver para trabalhar e
obter a felicidade como um subproduto. Não é fácil. As pessoas que vivem
para trabalhar são uma pequena e afortunada elite. Mas é uma elite aberta
aos recém-chegados, aos autoselecionados, a espécie de gente que destaca
e enaltece o positivo. Neste inundo, os optimistas vencem, não porque
estejam sempre certos, mas porque são positivos. Mesmo quando erram,
são positivos, e esse é o caminho da realização, correcção, aperfeiçoamento
e sucesso. O optimismo educado, de olhos abertos, compensa; o pessimismo
só pode oferecer a consolação vazia de estar certo. A única lição que
se destaca é a necessidade de continuar sempre tentando. Nada de milagres.
Nada de perfeição. Nenhum milénio. Nenhum apocalipse. Devemos cultivar
uma fé céptica, evitar dogmas, ouvir e observar bem, procurar esclarecer
e definir metas, os melhores que escolham os meios. ... Eu vos propus
a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida, para que vivas,
tu e a tua posteridade. Deuteronômio, XXX: 19