TELEVISÃO-EDUCAÇÃO OU DESEDUCAÇÃO ?

(Tópicos de uma intervenção nos Encontros da Arrábida -29.08.2001)

Eduardo Marçal Grilo

 

1. Televisão em Portugal - Um panorama desolador

A televisão é hoje em Portugal, como praticamente em todo o mundo, um instrumento com uma importância e uma influência crescentes na vida de uma parte significativa da população. Esta influência é, no entanto, exercida através de um "sistema de televisão" que proporciona aos telespectadores uma programação ou melhor um conjunto de programações que traduzem um panorama desolador e muito pouco edificante em termos éticos, morais ou estéticos. Este sistema de televisão português pode caracterizar-se do seguinte modo:

(i) Existência de quatro canais nacionais de acesso universal e gratuito;

(ii) Acesso através de um contrato a uma TV Cabo com dezenas de canais e onde se incluem os quatro canais nacionais;

(iii) Possibilidade de instalar antenas parabólicas que permitem o acesso a um número indeterminado de outros canais internacionais.

Quanto à qualidade das programações a situação pode sintetizar-se nas seguintes considerações:


A -RTP1; TVI; SIC

(i) A informação tem apenas que ser espectacular, ou tremendista, isto é, deve sempre descrever as desgraças e prever o apocalipse, e ser devidamente ilustrada se possível socorrendo-se de imagens nacionais. Se não houver nacionais, recorre-se às internacionais e se não houver umas nem outras desenterram-se imagens de arquivo;

(ii) As entrevistas não são conduzidas para ouvir o entrevistado mas para mostrar que a Estação, através do entrevistador, já sabe tudo e apenas pretende demonstrar que o entrevistado está em falta, ou porque mentiu, ou porque fez mal, ou porque não quer dizer o que fez ou porque esconde as malfeitorias que pretende fazer, particularmente se o entrevistado tem responsabilidades políticas. O entrevistado muitas vezes tem como único objectivo "aparecer" e ser notado. É indiferente que o seja pelas boas ou más razões;

(iii) O valor principal tido em conta é o dinheiro. Os programas mostram como é possível ficar milionário, que o dinheiro está mesmo ali e é tudo tão fácil, basta fazer uma habilidade ou pôr uma roda a girar (valha-nos que agora ao menos em alguns programas ainda é preciso saber alguma coisa para ter acesso aos prémios);

(iv) Nos chamados talk-shows o panorama é confrangedor. Os entrevistadores de uns são os entrevistados de outros. Muitos políticos não resistem e cedem ao populismo . O público ri-se da sua própria condição e da sua ignorância, ao mesmo tempo que se brinca com os sentimentos das pessoas e se exibem publicamente as tragédias e as infelicidades familiares. A imbecilidade é maior na televisão do que na própria vida real;

(v) Os crimes, a violência, o sexo e o voyeurismo são a base de muitos programas;

(vi) Nas transmissões de futebol os comentários sempre excessivos chegam a ser ridículos, com os comentadores "armados" em professores e em "cientistas" do jogo da bola;

(vii) Os temas mais sérios são muitas vezes tratados por quem não sabe (e há tantos e tantas) ou são abordados apenas na óptica sensacionalista.
Os que sabem ou não são ouvidos ou se são é apenas com o objectivo de extrair uma posição contrária à pessoa que está debaixo de fogo.
Ninguém fica esclarecido e ninguém fica a pensar no tema - os programas de televisão não têm que resolver problema nenhum mas têm a obrigação de ser sérios e contribuir positivamente para o debate das ideias;

(viii) Para além (i) da integral cobertura do Continente e das Regiões Autónomas, (ii) da RTP África e (iii) da RTP Internacional o Serviço Público de Televisão é factor muito pouco levado a sério pela RTP1 que insiste em ser competitiva com os dois outros canais o que torna os noticiários em sequências de notícias dignas de um jornal do crime, dum jornal de polícia, dum jornal desportivo ou de um jornal de imbecis. Tudo isto pago pelo orçamento de Estado através de subsídios que vão colmatando a falta de financiamento obtido através da publicidade;

(ix) Estes canais têm uma influência enorme sobre grande parte da população porque as suas programações marcam a "agenda" pública (talvez 80% das conversas dos portugueses sejam sobre programas de televisão) e à volta da televisão há hoje uma industria nomeadamente das revistas sobre figuras públicas, onde as "estrelas" da televisão coexistem com alguns políticos e com os chamados poderosos, mesmo que estes pertençam a poderes efémeros.


B- RTP 2

Com algumas diferenças em relação aos três canais anteriores a caracterização da RTP2 pode ser feita através das seguintes constatações:


(i) Os serviços de notícias são mais tranquilos. Não há o objectivo de instabilizar o telespectador. A ordenação das notícias é menos sensacionalista. Os entrevistados têm mais tempo para falar. Os entrevistadores são menos "autistas" (Nos três canais principais há algumas pequenas excepções de "pivots" como o José Alberto de Carvalho que é um profissional de qualidade indiscutível que consegue ser incisivo mas que conhece os limites da sua actuação).

(ii) A grelha de programas inclui alguns programas que procuram tratar seriamente temas actuais e um pouco mais profundos, ou seja que não são apenas "o tema do dia"


C - Os canais da TV CABO

Na TV Cabo a diversidade de canais permite ao telespectador uma escolha significativa o que possibilita ver noticiários da BBC , da CNN, do Sky News ou do Euro News, enquanto outro tipo de programas sobretudo no campo da cultura podem ser vistos nos canais História, People Arts, Arte, Odisseia , National Geographic ou MusiK e no campo do desporto no Sport Tv ou no Eurosport.

Os programas do História, do People and Arts ou do Odisseia têm uma qualidade e abordam as questões de uma forma que permitem ao telespectador preencher o seu tempo de lazer e simultaneamente cultivar-se, o que para muitos é ainda considerado relevante. Em relação à informação, tanto a CNN como a BBC, para só citar estes, são canais onde se tem acesso a notícias, comentários e imagens com razoável qualidade sobre a grande maioria dos acontecimentos que ocorrem à escala do planeta;

NOTA -Não se pretende que os três canais -RTP1; SIC e TVI sejam um meio ao serviço da educação, mas ao menos poder-se-ia evitar que tudo fosse feito ao contrário do que se pensou que a televisão podia ser. Porque o que está a acontecer conduz necessariamente a que os extractos sociais mais cultos e economicamente mais poderosos e que têm acesso aos canais temáticos continuem a aprender e a cultivar-se, enquanto os restantes têm de se contentar com programações muitas vezes "indigentes", que os entretêm, se calhar até os divertem, mas cujo "resíduo sólido" é positivamente nulo.

 

2. O papel da Televisão

Há uns cinquenta anos atrás pensou-se que a televisão com toda a capacidade que tem para colocar em casa das pessoas imagens e sons, era um meio poderoso para educar e cultivar os espectadores, sendo certo que os mais beneficiados com isso seriam seguramente os de menores recursos económicos, uma vez que se previa um acesso à televisão a preços muito baixos, pelo menos nos países ocidentais onde a energia eléctrica já estava razoavelmente disseminada e onde havia capacidade tecnológica para que rapidamente os receptores de televisão fossem a preço acessível.

Karl Popper dizia "Por mim penso que a televisão, cuja influência pode ser terrivelmente nociva, poderia ser, pelo contrário, um notável instrumento de educação". E em Portugal qual é a situação que hoje se vive?

 

3. Dois públicos distintos

Em relação ao acesso haverá hoje no nosso país, dois grupos distintos - o que dispõe de televisão por cabo ou de antena parabólica e aquele que integra os que têm acesso apenas aos quatro canais nacionais. O primeiro, que provém das camadas sociais mais favorecidas, consegue ver umas dezenas de canais, alguns dos quais temáticos e especializados, enquanto o segundo, proveniente essencialmente da população com menos recursos apenas vê canais cuja programação é generalista , muito diversificada pouco qualificada mas sempre espectacular. Mais uma vez como refere Karl Popper "o nível baixou porque, para manterem a audiência, as cadeias de televisão sentiram-se obrigadas a produzir cada vez mais programas sensacionalistas. Ora, o sensacionalisno raramente é bom";

Esta discriminação vai seguramente provocar um maior afastamento de uns em relação aos outros, acentuando-se o fosso que já hoje existe nomeadamente na sociedade portuguesa entre os mais favorecidos económica e culturalmente e os menos favorecidos.

Ou seja a televisão que se pensou poder ser um factor de democratização do saber e da cultura constitui-se hoje como um instrumento que favorece a discriminação e aumenta as desigualdades.

Não sei se o mesmo não se virá a passar com o acesso á informação através da INTERNET. Hoje também pensamos que esta é um factor decisivo para combater as desigualdades e promover o acesso á informação e ao saber, mas pela forma como os interesses se estão a posicionar em relação às NETS não tenho grandes dúvidas de que em breve chegaremos à mesma conclusão.


4. Educação ou deseducação

Quando se pede à escola que "faça tudo" porque muitas famílias já se demitiram de transmitir valores, temos que ter a noção de que, por força da competição desenfreada que tem tido repercussões no nível das programações, a televisão está a prestar um mau serviço à causa da educação. E isto porque quando as crianças chegam à escola já "levam" com elas uns milhares de horas em frente do televisor continuando a consumir televisão durante toda a sua escolaridade, em especial nas horas nobres que são aquelas em que o nível é mais baixo.

Não tenho dúvidas hoje em afirmar que a televisão, tal como hoje ela vai ao encontro da maioria da população,é um factor de deseducação e de aviltamento de alguns valores, valores estes que eu considero como pilares em que deve assentar a formação das crianças e dos adolescentes.

Num país que lê muito pouco e em que mais de 70% da população não tem a escolaridade obrigatória definida como a escolaridade básica de qualquer cidadão ( note-se que esta escolaridade obrigatória de 9 anos definida em 1986 não só não é excessiva como constitui uma evolução natural do processo de desenvolvimento) a televisão exerce uma influência sobre a população com muito maior impacto do que aquela que ocorre em países cujo nível educacional é muito superior a Portugal.


E não se pense que são apenas as crianças que são afectadas. Coitados dos idosos e dos doentes que não tenham outro meio de informação para saber o que se passa à sua volta. Com os noticiários que vêm e as imagens que lhes são transmitidas, devem sentir-se frequentemente assustados e ameaçados por toda uma série de possíveis catástrofes, ao mesmo tempo que nunca chegam a saber que no mundo actual não há só crimes, calamidades e desgraças.

5. Serviço Público

(i) Deixemos os canais privados cuja lógica de actuação é exclusivamente a do mercado e em que o consumidor não é o telespectador mas sim o anunciante que é quem paga. Ou seja estes canais que actuam no mercado têm o único objectivo de vender anúncios mostrando aos anunciantes que são vistos por x% dos telespectadores o que obviamente obriga os canais a entreter estes telespectadores de forma a poderem ver anúncios. Os produtos das televisões privadas como diz o Doutor João Caraça num artigo publicado no Artes e Letras há uns meses atrás, não são os programas mas sim os olhos fidelizados das audiências."O que a televisão produz e vende aos seus consumidores é a fidelidade da massa dos seus espectadores".

(ii) A existência de um serviço público de televisão implica uma reflexão séria sobre o destino a dar à RTP1 e à RTP2. Particularmente, será necessário analisar com cuidado o estatuto e o modelo de financiamento de que se deverá revestir o canal que neste momento é detido a 100% pelo Estado, sem esquecer o papel essencial que representa a televisão portuguesa nos países africanos lusófonos e junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo. (Sublinhe-se a este propósito a necessidade imperiosa de rever a programação dos canais RTP África e RTP Internacional, sobretudo desta última e em particular no que diz respeito aos noticiários que são os mesmos que vão para o ar na RTP1. É lamentável que os nossos emigrantes sejam postos perante noticiários cujo alinhamento e conteúdo nada têm a ver com um serviço noticioso sério e rigoroso que é aquilo que eles seguramente mais apreciariam).

(iii) O caso da RTP é o caso paradigmático de um canal que sendo público cumpre as regras mínimas de prestação de um serviço público. Há algumas semanas o Prof. Eduardo Prado Coelho propôs a criação de um Círculo de Amigos da RTP, no que foi secundado pelo Prof. Mário Pinto, tendo em vista a garantia de um verdadeiro serviço público de televisão.

A ideia parece-nos interessante, mas entendemos que nesta fase se deve estudar uma proposta em que a RTP não sendo privatizada possa assentar num modelo em que o seu financiamento resulte de uma contratualização entre o Estado e os cidadãos. Nestas circunstâncias, os cidadãos individualmente considerados poderão ser "sócios" da empresa, comparticipando no financiamento "como uma taxa" (que em hora infeliz foi abolida quando se lançaram os canais privados) e participando activamente na definição da programação sem os objectivos de captar os anunciantes isto é sem a obsessão das audiências.
É uma perspectiva de criação de um verdadeiro serviço público de televisão que se insere no meu objectivo de lançar uma televisão que possa ser para o grande público um factor educativo.

Um canal educativo não é um canal onde se dão aulas e onde há disciplinas é antes um canal cuja programação assenta num conjunto de princípios e valores que devem estar presentes em todos os programas.

Canais educativos não são os canais pseudo-intelectuais onde se vê ópera, ballet, cinema de intervenção ou teatro pós-moderno, são canais que tendo uma programação generalista são capazes de ser rigorosos, modernos, tranquilos, divertidos, sérios e culturalmente evoluídos.

Num país como Portugal não se pode querer que uma população com este nível educacional se interesse por canais como o People Arts, o Arte, o História ou o Odisseia.

Mas acredito que é possível criar um canal que seja educativo e cultural sem ser maçador. Há que encontrar um equilíbrio entre "o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho".

O mais importante é que os média e a televisão em particular sejam capazes de contribuir para o crescimento e para a realização de cada um e especialmente para despertar em cada jovem o interesse e o gosto pelo saber e pelo conhecimento ao mesmo tempo que deve tornar cada um mais autónomo e capaz de criar os seus próprios centros de interesse e motivação.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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