Tema 1
Definição do conceito de literatura para a infância e juventude

O conceito de literatura para a infância tem sido problematizado ao longo do tempo por diversos autores que o definem de acordo com diferentes pressupostos: Citam-se alguns exemplos:

São as crianças, na verdade, que o delimitam, com a sua preferência. Costuma-se classificar como Literatura Infantil o que para elas se escreve. Seria mais acertado, talvez, assim classificar o que elas lêem com utilidade e prazer. Não haveria, pois, uma Literatura Infantil a priori mas a posteriori. Mais do que literatura infantil existem "livros para crianças".

Cecília Meireles (1951)

A literatura para a juventude é uma comunicação histórica ( quer dizer localizada no tempo e no espaço ) entre um locutor ou um escritor adulto ( emissor ) e um destinatário criança ( receptor ) que, por definição, de algum modo, no decurso do período considerado, não dispõe senão de forma parcial da experiência do real e das estruturas linguísticas, intelectuais, afectivas e outras que caracterizam a idade adulta.

Marc Soriano (1975)

Alguns autores salientam a importância do conceito de "prazer do texto" na literatura infantil e juvenil e propõe uma visão bastante alargada desse domínio, com inclusão dos multimedia.

Jean Perrot (1975)

Outros criticam certas posições dogmáticas que fazem o livro, tanto a imagem como o texto, estar dependente da apreciação do adulto, considerando que a questão da apreciação tem variado conforme as épocas e os modos culturais. Regra geral mantém-se ainda, e infelizmente, a atitude dirigista e dogmática dos adultos que encaram a literatura para crianças como um terreno onde é aceitável decretar funções e modos de utilização.

Denise Escarpit (1988)

A mesma autora considera que o livro é simultaneamente um objecto e um sujeito social.

O livro é um objecto social na medida em que entre os milhares de objectos oferecidos à venda para crianças se dimensiona um espaço de produção, um espaço económico e um espaço social onde circulam as ideias, as opiniões, os modelos de comportamento propostos pelos autores, ilustradores e pelos críticos que são afinal: os pais,os professores, os bibliotecários, os animadores etc, sempre que escolhem as obras a dar a ler às crianças.
O livro é também um objecto de prazer, porque em certa medida a criança encontra nele, a satisfação das necessidades reais. É enfim um objecto individual e colectivo cujo grau de comunicação do autor ao leitor, do indíviduo à massa é mensurável.

O livro é também um sujeito social, uma vez que tem na relação com a criança estatuto especial. O livro é sujeito de estudo para literatos, historiadores da literatura, artistas plásticos, psicólogos, psicanalistas e psicopedagogos, educadores, sociólogos e até para especialistas de informação e comunicação.

Há quem cite definições de vários escritores e na sua experiência vivida com crianças, para apontar três elementos fundamentais na definição deste conceito literatura para a infância e juventude:

Mercedez Manzano (1985)

- simplicidade criadora
- audácia poética
- comunicação adequada

A simplicidade abarca a obra na sua globalidade: enredo, tema, estrutura e linguagem.Simplicidade, não simplificação.

A segunda nota caracterizadora da literatura infantil é, segundo, a poesia, intimamente ligada com a linguagem. O escritor deve conceder uma margem à criatividade e à audácia poética. Nessa progressão poética e criativa facilita-se à criança o acesso ao texto. A criança, em contacto com a audácia poética do texto, percebe a quebra de rotina e situa-se na literatura como um lugar em que pode aperceber-se da sua identidade e tentar reconhecer-se.

Como terceira e última nota caracterizadora deste tipo de literatura destaca-se o simbolismo e a comunicação.Uma autêntica comunicação é a melhor motivação para provocar o desejo de ler, para saber escolher.

Reflectindo sobre o facto de a expressão "literatura infantil" efectuar a junção de dois termos ambíguos, há autores que propõem integrar na literatura infantil "toda a produção que tenha como veículo a palavra com um toque artístico ou criativo e como destinatário a criança".

Juan Cervera (1991)

Um outro aspecto a considerar é a diferença entre literatura infantil e literatura juvenil.
João David Pinto Correia tece as seguintes considerações sobre uma possível diferenciação entre estes dois tipos de literatura.

"Na literatura infantil, o produtor vai preocupar-se com fomentar a criatividade na criança: as histórias aproveitam não só o fantástico, o maravilhoso ( as fadas, os gigantes, os anões, etc ), como vão explorar os aspectos mais poéticos, inéditos de pormenor, do ambiente em que vive a criança, ou da natureza exótica que facilitem um maior contacto com a realidade distante ( no espaço e no tempo )."
Por seu lado a literatura juvenil consiste fundamentalmente em práticas literárias de "imaginação" que podemos caracterizar como próximas das "literatura de massas".

João David Pinto Correia (1978)

Actividades:

1. Aprecie cada uma das definições e perspectivas apresentadas, indicando os pontos em que as considera correctas e aqueles em que as considera discutíveis ou incorrectas.

 

2. Elabore a sua própria definição deste conceito, tendo em conta as perspectivas apresentadas e a sua própria experiência de apreciação e selecção de obras para crianças.

 

 

 

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