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Tema
3
Literatura para crianças e desenvolvimento pessoal
Da oralidade à literacia
"A
palavra viva possui uma alma da qual a palavra escrita
não é mais do que uma imagem"
Sócrates
Para
Mercedez Manzano (1985) no contexto da nossa sociedade
é necessário ter em conta que o encontro,
entre a criança e livro e a criança provoca
uma comunicação emotiva, penetrante, interrogativa
e inesperada. "Devemos revelar à criança
a literatura como elemento constitutivo do seu património
cultural, como horizonte de conquista pessoal e social,
como objecto impulsionador de autonomia, de comunicação
verdadeira, de observação audaz e de fonte
de criatividade" (1985).
É sobre as diversas etapas desse mágico
e misterioso encontro entre a criança e o livro
que se apresentam contributos de vários autores.
Os períodos de leitura Díaz (1997) apresenta
uma classificação dos diferentes períodos
de acesso à leitura:
-
sensibilização
-
aprendizagem
-
consolidação
A sensibilização à leitura
Este primeiro período que abarca os primeiros anos
anos de vida decorre fundamrentalmente do ambiente familiar
e condiciona em grande número o que se irá desenvolver
mais adiante.
Numa primeira etapa a criança contacta com os textos
que lhe são transmitidos oralmente. Graças à relação
com os pais, esta adquire um certo vocabulário pessoal,
percebe as informações orais que os pais lhe dão e atribui-lhes
conteúdo ( em forma de imagem mental ) mediante um processo
ideovisual.
Kieran Egan (1999) cientista canadiano, especialista
em desenvolvimento educativo, considera que a valorização
do património cultural de cada povo pode ajudar
a compreender melhor o que está implicado na
transição da oralidade para a literacia,
e a melhorar a qualidade e riqueza da literacia que
se consegue.
A sua tese é que a oralidade desenvolve um conjunto
de estratégias mentais poderosas e eficazes,
algumas das quais tendem a ser desvalorizadas nos sistemas
educacionais ocidentais. Numa cultura oral o ouvido
está mais harmonizado para apreender certas mensagens
graças à utilização de recursos
como as imagens, a rima, o ritmo e a repetição
de fórmulas . Os provérbios, máximas,
adivinhas, anedotas e todo o tipo de rimas infantis
utilizam estas ferramentas linguísticas que facilitam
e treinam a memória da criança ouvinte.
Quem não sabe de cor as rimas de jogar ou de
adormecer que aprendeu na infância?
Também a narrativa sob a forma de história
pode surgir numa fase muito precoce da vida da criança.
Os temas enquadrados como opostos binários (
bem / mal; coragem / cobardia; medo / segurança;
beleza / fealdade; esperança / desespero ) são
elementos estruturantes nos contos populares que se
podem considerar os textos fundadores de cada povo.
Essas oposições binárias correspondem
aliás, aos movimentos de oscilação
das vivências infantis. As crianças sentem-se
ameaçadas por um ser feroz e depois graças
a um talismã a tensão cede lugar à
felicidade.
A criança é, também, naturalmente
um poeta que tem em si os recursos da oralidade. Ela
inventa palavras e usa metáforas a toda a hora.
É com base nestes pressupostos que Kieran Egan
defende programas educacionais, estruturados de acordo
com um perfil de desenvolvimento, que utilizam as aptidões
orais do aluno para tornar a leitura e a escrita cativantes.
A sensibilização à leitura
Numa etapa seguinte a criança começa
a ter contacto com os textos escritos.
Na opinião de Inês Sim-Sim (2001) as bases
para o sucesso escolar remontam a um tempo muito anterior
ao 1º ano de escolaridade, sendo a família
e o jardim de infância os ambientes privilegiados
para o desenvolvimento dessas bases. A aprendizagem
da leitura está relacionada com o acesso a livros
e a outro tipo de material escrito:
-
revistas
-
legendas
-
panfletos publicitários
-
registos informáticos
"É através da experiência
com este material, quer directamente através
do manuseamento quer indirectamente pela leitura de
outrém, que a criança "descobre "os
princípios que regem a escrita. Segundo esta
investigadora todas estas actividades " iniciam
a criança numa espécie de namoro com a
linguagem escrita que estimula o desejo de conhecer
mais sobre essa mesma realidade e de com ela se envolver
" (2001).
Os primeiros livros
de imagens
A terceira etapa é o contacto com os diversos
tipos de álbuns e livros ilustrados.
Segundo Díaz (1997) é nesta fase que a
leitura de regaço tem todo o sentido. A criança
através do livro que lhe é apresentado
ao colo recebe um número de informações
ideovisuais e através do olhar aprende as formas,
as cores e as imagens. Este é um meio de estimular
a aprendizagem, uma vez que ela se interessa pelo livro
movida pelo desejo de conhecer o seu conteúdo-
-histórias,informações e jogos.
Trata-se de uma actividade que se leva a cabo num clima
de grande intimidade e que desperta um sentimento de
prazer muito gratificante. A criança neste período
vai adquirindo um certo vocabulário pessoal.
Segundo Marion Durand (1982) aos 15 meses a criança
apercebe-se que a imagem é reveladora da história
que está legendada. Esta aponta com o dedo as
coisas que considera interessantes, para confrontar
com o que ouve; ao ler a imagem a criança reconhece-se
nas personagens, reconhecendo como um semelhante ao
mesmo tempo parecido e diferente; estabelece laços
afectivos com elas: ri e chora com as personagens, em
suma, emociona-se.
Ler uma imagem é também ter acesso a um
conjunto de convenções gráficas
próprias da nossa cultura e da nossa sociedade.
As imagens devem corresponder ao núcleo do eu
/ mundo de forma a que a criança as identifique
e permitam uma progressão ajustada ao seu desenvolvimento.
Folhear as páginas do livro é a metáfora
do desenrolar do tempo que a própria sucessão
das ilustrações realça; ao fazê-lo
a criança brinca com o tempo, fazendo-o avançar
ou recuar.
Ouvir a leitura da história, manusear o livro
permite-lhe identificar as invariantes da história
através da sua repetição na imagem,
contactar com a grafia e o arbitrário do signo.
A criança aprende desde cedo que o livro é
um objecto diferente do brinquedo. O livro é
um veículo do sonho e fala de conflitos que são
muito semelhantes àqueles com que as pessoas
se debatem. .
Na opinião de Marie Bonnafé (1994) os
primeiros livros de imagens têm para o bébé
uma função equivalente ao objecto transicional
( um bocado de tecido ou um brinquedo ), no seio deste
universo transicional que se cria entre a criança
e a mãe, ou quem dá os primeiros cuidados
maternos . Recorde-se que para Winnicott (1971) o objecto
transicional não é o objecto, mas o investimento
imaginário que a criança faz a partir
dele.
Os primeiros livros de imagens, as primeiras narrativas
ou rimas infantis, têm pois o seu lugar neste
universo imaginário, por entre esses curiosos
objectos de amor propostos à invenção
nascente dos bébés, para servir de intermediário
entre eles e mundo exterior.
As histórias contadas no seio familiar e no jardim
de Infância funcionam como um elemento securizador,
constituem uma invariante que suaviza a angústia
da separação própria desta fase
de grandes mutações e têm uma função
catártica para os medos, inseguranças
e fantasmas que povoam a alma das crianças.
Quando a criança chegar a descobrir a mecânica
que envolve a descodificação do texto
entrará por si só na magia da leitura.
A aprendizagem da leitura
Segundo este autor a partir dos três anos o
aluno confronta-se com um novo período, marcado
especialmente pela experiência escolar. Trata-se
de um período de socialização plena
na qual o sujeito verá satisfeita a necessidade
de domínio interpretativo de leitor, de tal forma
que no final da sua aprendizagem poderá confrontar-se
com um texto com as características assinaladas
para a sua culminação:
-
descodificação
-
compreensão
Nesta fase a competência de leitura começa
a ser objecto de atenção escolar . Trata-se
de uma fase eminentemente lúdica conservando-se
"a metodologia ideovisual da aprendizagem".
Ao longo deste período, o aluno irá mostrando
as suas qualidades, através do exercício
descodificador, ao qual ele próprio dará
sentido. O carácter lúdico e divertido
do exercício vai gerar nele sentimentos de prazer
tão grandes que vão estimular o seu interesse
pela leitura.
Nesta fase é muito importante que a criança
tenha à sua disposição obras de
literatura infantil concomitantemente com os livros
de aprendizagem. Na nossa opinião é neste
período que se deve estimular na criança
o gosto pelos livros através da organização
da sua biblioteca pessoal em casa, da biblioteca na
sala de aula com uma forte interacção
com a biblioteca escolar para intercâmbio de livros.
Este contacto deve ser constante, permanente e progressivo
desde o jardim de infância.
A consolidação da leitura
Segundo
Díaz nesta idade o aluno tem desenvolvido todo o seu
processo de maturação e está pronto para o exercício
descodificador e compreensivo do acto leitor.
A sua personalidade oferecerá um permanente estado de
mudança e a sua competência de leitura vai progressivamente
melhorando. O próprio conteúdo textual vai enriquecendo
a personalidade da criança e o seu intelecto desenvolve-se
com a recreação imaginária na qual o seu exercício leitor
resultará melhorado. A autonomia
progressiva do sujeito leitor é a característica mais
importante deste período.
Convém sublinhar a importância que este autor atribui
à escola na consolidação
das potencialidades leitoras.
"Se
no período de sensibilização
a família ainda exercia uma certa influência sobre
a criança, nesta nova fase a responsabilidade recai
no trabalho desenvolvido pelos professores, de forma
a desenvolver no aluno os hábitos e os interesses
leitores. Só desta forma o aluno terá referências
que lhe permitam ter uma actividade crítica face ao
texto literário"
Díaz
(1997)
Segundo
este autor, do ponto de vista do amadurecimento, a linguagem
permite um desenvolvimento amplo da personalidade que
está directamente relacionada com a destreza leitora.
Nota-se como, durante este período, a leitura vai
modificando o carácter do aluno de tal forma que,
se durante a sensibilização a leitura servia
para consolidar as bases referenciais da personalidade
do bebé e mais adiante com a aprendizagem pretendemos
dar uma resposta prática à necessidade comunicativa
da criança, durante todo o período de consolidação
a prática fornece à leitura um carácter
mais:
-
Utilitário,
mediante o qual ele poderá satisfazer as
suas necessidades formativas no âmbito escolar.
A dimensão utilitária da leitura tem
um carácter mais funcional e é a mais
vulgarizada na sociedade em que se vive - ler para
actividades básicas de integração
social como ler o jornal, preencher um formulário,
consultar a lista telefónica, etc
-
Socializador,
que lhe permitirá participar no seu ambiente quotidiano
de forma funcional. A linguagem por ser a base fundamental
da relação social permite a interacção do sujeito
com o meio ambiente. O contacto com vários modelos
e o confronto que se estabelece, vai conduzir a
um alargamento das perspectivas acerca da vida e
dos outros. A leitura permite uma ligação à memória
colectiva.
-
Formativo,
pois os conhecimentos serão facilmente integrados
(na sua estrutura mental de conhecimento) o que
permitirá um progressivo desenvolvimento
da pessoa. É o aperfeiçoamento do
leitor como pessoa, ou seja, a intervenção
a nível da construção de uma
personalidade.
Do ponto de vista emocional a leitura ajuda a criança,
especialmente a mais jovem, a racionalizar a sua
conduta mais dominada pelo inconsciente. A leitura
permite o aperfeiçoamento intelectual, linguístico
e até do próprio pensamento.
-
Lúdico,
pois permitirá desenvolver hábitos leitores para
disfrutar com periodicidade do exercício íntimo
do prazer literário. Daniel Pennac no seu livro
Como Um Romance recorda assim o momento da
leitura nocturna que fazia ao seu filho pequeno:
"Gratuito.
Pelo menos era assim que ele o entendia. Um presente.
Um momento fora de todos os momentos. Quaisquer
que fossem as circunstâncias. A história nocturna
aligeirava-lhe o peso do dia. Largavam-se as amarras.
Ia com o vento, levíssimo, o vento que era a nossa
voz."
Daniel
Pennac (1992)
Actividades:
|
1.
A partir das perspectivas apresentadas sobre a
relação criança / leitura,
refira as suas diferentes fases.
|
|
2.
Com base nessas perspectivas elabore um comentário
crítico ( 20 linhas ) sobre as diversas
vertentes da leitura no desenvolvimento da criança.
|
A leitura e as fases etárias
Segundo
Marie Bonnafé ( 1994 ), as narrativas acompanham a evolução
da criança nas suas trocas com o adulto e, em cada etapa
do seu desenvolvimento, haverá elementos de um género
de narrativa que melhor corresponde à vivência interior
e à relação da criança com o seu meio envolvente.
Os profissionais de educação educadores e professores
devem pois saber escolher os livros que põem à disposição
das crianças em função da faixa etária.
Apresentamos seguidamente algumas perspectivas teóricas
sobre este tópico que são completadas por três quadros
de sistematização.
No
capítulo da sua obra A Literatura Infantil
e Juvenil (1999) Glória Bastos apresenta
a perspectiva de Appleyard (1991).
Este autor não distingue propriamente fases,
mas cinco "papéis" que o leitor pode
assumir, remetendo para atitudes e intenções
que o leitor traz para a leitura e do uso que faz da
mesma. São eles:
- O
leitor como "player" quando a criança
é ainda ouvinte de histórias, assumindo
um papel de participante / actor confiante num mundo
de fantasia que simbolicamente recria a realidade,
os medos e os desejos, situação que
a ajuda pouco a pouco a ultrapassá-los e
a controlá-los;
- O
"leitor
como herói ou heroína", quando a criança (do 1º
e 2º ciclos) se assume como figura central de uma
história que está constantemente a ser reescrita,
de acordo com a imagem que vai construindo do mundo;
- O
"leitor como pensador", para o período
da adolescência, numa altura em que o leitor
procura descobrir nas histórias o sentido
da vida, valores e verdades, imagens ideiais e autênticos
papéis-modelo para imitação;
- O
" leitor como intérprete", para
o jovem que estuda literatura de forma sistemática,
caso do estudante do ensino secundário ou
universitário, ou dos próprios professores.
Neste caso, a literatura é encarada como
um corpo organizado de conhecimentos, com os seus
princípios e as suas regras, que é
possível analisar;
- O
"leitor pragmático", da idade adulta
que, embora possa ler de várias maneiras
e apropriar-se dessa leitura de formas diversificadas,
tem uma maior consciência que faz das escolhas
e dos usos que faz da leitura.
Sublinhe-se que para Appleyard esta classificação
não é rigída e depende essencialmente
do grau de amadurecimento de cada criança.
Neste
quadro
Ana Mariza Filipouski ( ) reelabora e sistematiza a
teoria de Piaget, associando a cada estádio de desenvolvimento
os tipos de leitura mais adequados.
Na
sua obra O gosto pela Leitura Leonor Cadório apresenta
dois quadros que integram as perspectivas de Piaget
e de Appleyard, bem como a sistematização didáctica
de um plano leitor proposta por Díaz.
QUADRO
1
EVOLUÇÃO DO ALUNO COMO LEITOR
|
Evolução Leitor
|
Estágios de Piaget
|
Classificação dos períodos de Leitura
|
Actividade Escolar
|
Nível Educativo
|
|
1. Conhecimento |
Pré-linguístico / Sensório-Motor |
Sensibilização |
Nível Experimental |
Educação Pré-Escolar |
|
2. Aprendizagem |
Pré-Operacional |
Aprendizagem |
Preparação Madurativa e Aprendizagem |
Educação Pré-Escolar |
|
3. Prazer |
Operacional |
Aprendizagem |
Consolidação |
1º Ciclo |
|
4. Hábito |
Adolescência |
Consolidação |
Funcionalidade |
2º e 3º Ciclos |
|
5. Pensamento Crítico |
Juventude |
Consolidação |
Aperfeiçoamento |
Escola Secundária |
QUADRO
2
EVOLUÇÃO DO ALUNO COMO LEITOR
|
Etapa
|
Características
|
Temporização
|
|
Leitor "lúdico" |
A criança que ainda não lê, mas ouve histórias,
torna-se um "jogador" confidente num mundo de fantasia.
|
Educação Pré-Escolar |
|
Leitor como Herói |
A criança é a figura principal dum romance que ela
constantemente reescreve à medida que relaciona
com a imagem que tem do mundo como as pessoas se
comportam |
Do 1º Ciclo à Adolescência |
|
Leitor como Pensador |
O adolescente olha para as histórias para descobrir
significados para a vida, valores e crenças, imagens
e modelos de imitação |
Adolescência |
|
Leitor como Intérprete |
O texto é visto como algo feito por alguém, como
algo problemático que requer interpretação |
Universidade |
|
Leitor Pragmático |
O leitor adulto escolhe, consciente e pragmaticamente,
os usos das suas leitoras |
Adulto |
Actividades:
|
Tomando
como referência uma das três grelhas
apresentadas, escolha duas ou três obras
que considera adequadas para cada etapa do desenvolvimento,
indicando o género literário a que
cada uma pertence. Pode utilizar uma biblioteca
ou uma livraria para realizar esta proposta.
|

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